O Brasil estabeleceu o procedimento que utilizará para identificar e priorizar as áreas elegíveis para seus primeiros leilões de energia eólica offshore. A metodologia introduz uma série de filtros legais, tecnológicos, ambientais e econômicos para organizar o espaço marítimo antes da viabilização dos projetos.
O processo terá três etapas. Primeiro, as regiões potenciais serão delimitadas, descartando-se aquelas com impedimentos legais ou tecnológicos. Em seguida, as áreas de interesse serão definidas utilizando critérios técnico-econômicos e socioambientais. Finalmente, as zonas resultantes serão classificadas para identificar os setores com as melhores condições para uma futura oferta.
Contudo, a publicação não equivale à seleção das regiões a serem leiloadas . A metodologia estabelece o mecanismo de avaliação, mas a decisão sobre quais setores entrarão no mercado caberá à autoridade concedente, de acordo com os objetivos de cada rodada e o nível de desenvolvimento da indústria.
A primeira fase aplicará exclusões rigorosas à Zona Econômica Exclusiva do Brasil. Serão excluídas áreas com restrições legais intransponíveis, zonas reservadas às Forças Armadas, rotas marítimas de tráfego intenso, áreas protegidas e regiões incompatíveis com as tecnologias de energia eólica disponíveis.

Variáveis como a velocidade do vento e a profundidade do fundo do mar também serão avaliadas. Áreas com recursos insuficientes ou localizadas em profundidades além do alcance das soluções técnicas disponíveis serão descartadas antes de se prosseguir para análises mais detalhadas.
A segunda etapa incorporará filtros relacionados à viabilidade econômica e logística. Estes incluirão a distância aos principais portos, a proximidade aos pontos de conexão da rede elétrica, as características do recurso eólico e as condições necessárias para a instalação de fundações fixas ou sistemas flutuantes.
Ao mesmo tempo, serão excluídas áreas com extrema sensibilidade socioambiental. A análise considerará recifes de coral, sítios Ramsar, áreas relevantes para a conservação de aves e espécies ameaçadas, bem como territórios ligados a comunidades costeiras e atividades econômicas preexistentes.
A metodologia também avaliará a coexistência da energia eólica offshore com a pesca artesanal e industrial, o turismo, o transporte marítimo, a infraestrutura portuária, o patrimônio cultural e a atividade de petróleo e gás.
Cada componente receberá uma classificação de sensibilidade em uma escala de 1 a 5. As áreas com o nível mais alto serão excluídas da definição de áreas de interesse, enquanto as demais camadas ambientais e sociais serão integradas posteriormente ao processo de priorização.
Na terceira fase, a EPE comparará as áreas viáveis utilizando uma análise multicritério. A avaliação combinará fatores técnicos, econômicos, logísticos e socioambientais para estabelecer um ranking dos setores com as melhores condições relativas.
O procedimento levará em consideração variáveis que influenciam diretamente o custo dos projetos, como a qualidade do vento, a profundidade, a distância da infraestrutura de transmissão e a proximidade de portos capazes de receber, armazenar e montar componentes de grande porte.
Uma maior disponibilidade de recursos eólicos pode aumentar a produção e reduzir o custo relativo da energia. Por outro lado, maiores profundidades ou distâncias da costa podem aumentar o custo das fundações, cabos submarinos, subestações e da instalação e manutenção.
O resultado desta análise serão os chamados setores de fornecimento, áreas indicativas que podem ser consideradas para os procedimentos de transferência do uso do espaço marítimo. Esses setores não devem ser confundidos com os prismas, que são os polígonos específicos correspondentes a cada projeto e delimitados posteriormente.
Menos projetos em andamento e maior pressão para reduzir os riscos.
A metodologia surge após uma forte contração no portfólio de projetos de energia eólica offshore do Brasil durante o processo de licenciamento.
O conjunto de projetos registrados no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBM) passou de 96 projetos e 234 GW em janeiro de 2024 para 59 iniciativas e cerca de 134 GW em fevereiro de 2026.
A redução de quase 43% coincidiu com a saída ou desistência de vários promotores imobiliários internacionais. O ajuste eliminou alguns dos projetos mais especulativos, mas também evidenciou a necessidade de regras mais claras, áreas de foco e sinais econômicos antes da mobilização de novos investimentos.
O novo processo busca reduzir essa incerteza desde os estágios iniciais. Ao identificar conflitos legais, ambientais e territoriais previamente, o Brasil visa diminuir o risco de paralisação de projetos após avanços em estudos, licenças e acordos comerciais.
A metodologia também incorpora instâncias de participação institucional e social. A proposta recebeu contribuições de organizações que fazem parte do Grupo de Trabalho sobre Energia Eólica Offshore e contribuições submetidas durante a Consulta Pública 191/2025.
A implementação do programa incluirá reuniões informativas nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul, bem como oficinas com comunidades pesqueiras e costeiras e uma nova consulta pública sobre os setores preliminares.
O governo também planeja publicar mapas georreferenciados, camadas de sensibilidade e fichas técnicas para as áreas analisadas. O objetivo é melhorar o acesso à informação e reduzir as disparidades entre autoridades, comunidades e potenciais empreendedores.
O futuro processo de seleção deve ser coordenado com o planejamento de portos, redes de transmissão e instalações terrestres de apoio. Sem essa infraestrutura, mesmo áreas com bons recursos eólicos podem enfrentar dificuldades para alcançar condições competitivas.
A metodologia prevê vários meses para a conclusão dos filtros e análises. A identificação de regiões potenciais levaria entre quatro e cinco meses, enquanto o mapeamento socioambiental, a definição de áreas de interesse e a priorização final seriam realizados parcialmente em paralelo.
O mercado mantém a expectativa de que o primeiro leilão de áreas marítimas possa ser realizado em 2027. No entanto, a seleção dos setores, as respectivas consultas e a definição das condições econômicas e contratuais da rodada precisam ser concluídas previamente.
O Brasil agora possui um marco para gerenciar seu potencial eólico offshore, mas o próximo passo será traduzir essa metodologia em áreas concretas e projetos financiáveis. A publicação reduz alguns riscos regulatórios, embora as zonas específicas, o cronograma final e o modelo que o país utilizará para atrair investimentos ainda estejam pendentes.

