A Colômbia se aproxima de uma nova eleição presidencial em meio a um debate energético cada vez mais sensível: que tipo de governo o país precisa para desbloquear o desenvolvimento de energias renováveis?
A pergunta foi feita diretamente durante a transmissão da Strategic Energy a Juan José Angulo, fundador da AMC Principal, advogado, consultor e uma das figuras mais atuantes na análise regulatória e transacional do setor elétrico colombiano.
A pergunta era simples: quem se beneficia da energia fotovoltaica? Qual candidato oferece as melhores condições para a energia renovável? O setor deve optar pela continuidade, pela mudança ou por uma visão mais ampla de segurança energética?
Angulo recusou-se a citar nomes. Mas ofereceu uma definição fundamental: para que a energia renovável cresça, a Colômbia precisa de um governo que proporcione segurança, desbloqueie a infraestrutura e traduza as regulamentações em projetos que sejam efetivamente construídos.

A seguir, apresentamos os principais pontos da entrevista.
—Juan José, antes de falarmos sobre energia: como está sendo vivenciado este momento eleitoral na Colômbia?
—Estamos vivendo um momento complexo. Há um ditado popular que diz que mar calmo nunca fez grandes marinheiros, e acho que a Colômbia está passando exatamente por esse tipo de momento.
O que acontecer nessas eleições será decisivo, não só para o futuro da energia, mas também para o futuro do país como uma sociedade em desenvolvimento. É por isso que é tão importante que as pessoas saiam para votar.
A Colômbia está arriscando muito mais do que uma agenda setorial. Está arriscando o próprio rumo que o país tomará no futuro.
—Você sente que existe um desejo de continuidade ou um desejo de mudança?
—Acho que o país está em processo de definir para onde quer ir.
A energia é uma questão transversal. É a base que nos permite alcançar muitos dos objetivos que uma sociedade estabelece para si mesma. É por isso que, quando falamos de energia, não estamos falando apenas de eletricidade: estamos falando de desenvolvimento, competitividade, bem-estar e capacidade produtiva.
Se as pessoas realmente comparecerem às urnas, podem haver surpresas. Existe um eleitorado que ainda pode se mobilizar e que não está necessariamente totalmente refletido nas pesquisas.
—Quando você olha para as pesquisas, os cenários ficam muito equilibrados. Esses números fazem sentido para você?
—Quando as informações de diferentes pesquisas são sintetizadas, começamos a falar de empates técnicos. Matematicamente, o resultado poderia ir para qualquer lado.
Mas na Colômbia, há sempre um elemento-chave: a abstenção. Isso pode ser um fator determinante. Quem conseguir mobilizar aqueles que ainda não decidiram votar, ou aqueles que estão indecisos, poderá encontrar uma oportunidade muito importante.
—Vamos abordar a questão da energia. Quem, entre os candidatos, se beneficia das energias renováveis?
—Vou responder com base no que acredito ser necessário para o setor de energias renováveis e para a indústria elétrica em geral. Depois, cada um poderá tirar suas próprias conclusões.
Minha atuação profissional tem se concentrado em energias renováveis. Passei uma década ajudando a construir um setor que praticamente não existia na Colômbia. Mas hoje, o setor não está mais no mesmo estágio de dez anos atrás.
A energia renovável já provou o seu valor. Agora precisa completar o seu ciclo de maturação. E para isso, necessita do contexto certo: sistemas elétricos robustos, redes capazes de receber essa energia e condições seguras.
—Mas deixe-me perguntar de forma mais direta: qual candidato é o melhor? Você pode me dar um nome?
—Acho que isso ainda está por ser descoberto.
Não tivemos grandes debates sobre energia nesta campanha, e isso gera incerteza. Alguns candidatos apresentaram ideias, enquanto outros nos permitem antecipar certas abordagens com base no que elas representariam como continuidade ou mudança.
Mas, para mim, o ponto crucial é outro: o candidato que mais reforçar a noção de segurança será um aliado estratégico das energias renováveis.
—Segurança em que sentido? Segurança jurídica?
—Segurança regulatória, segurança institucional, segurança para mobilizar capital, segurança para construir infraestrutura e segurança energética.
As fontes de energia renováveis precisam de um sistema capaz de receber sua energia. Elas necessitam de transmissão, conexão, regras claras, licenças, financiamento e capacidade de implementação.
Não basta um candidato dizer que apoia as energias renováveis. O essencial é saber se ele consegue criar as condições para que esses projetos se tornem realidade.
—Então, o setor não está apenas analisando quem promete mais energia solar ou eólica?
—Exatamente. Essa é uma das grandes lições dos últimos dez anos.
Mecanismos promocionais, como leilões, são muito importantes. São necessários e têm sido um incentivo adequado. Mas não são suficientes.
A Colômbia recebeu importantes prêmios e sinais de preço relevantes, mas uma parcela significativa disso não se traduziu em infraestrutura construída.
—Qual era o problema?
—Que o setor de eletricidade não pode ser resolvido apenas no papel.
Leis, decretos, leilões e resoluções são ferramentas. Mas não devemos atribuir-lhes mais do que elas podem oferecer.
Em seguida, vem a realidade física do mercado: a conexão, a transmissão, o território, as comunidades, as licenças, as linhas, as torres, o financiamento e a construção.
É aí que se define se um projeto existe ou não.
A Colômbia precisa de mais leis ou precisa implementar melhor as que já possui?
—A Colômbia possui leis de altíssima qualidade. Como advogado, e comparando com outros países, posso afirmar que o país tem regulamentações muito bem elaboradas.
Sempre haverá coisas a melhorar, mas o principal problema não é a falta de regras. O desafio é colocá-las em prática.
As instituições devem se comprometer a transformar essas declarações normativas em infraestrutura real.
—Quando você conversa com pessoas do setor, muitas parecem estar pedindo por mudanças. Mas o governo atual também anunciou medidas para energias renováveis. Como você explica essa contradição?
—Porque o mercado já aprendeu que um sinal regulatório ou um leilão não são suficientes.
Um novo leilão pode ser um bom sinal. Mas os investidores também analisam a segurança jurídica, a capacidade de transmissão, a confiabilidade dos pagamentos, o andamento das licenças e a viabilidade do projeto.
O setor não está apenas pedindo mais anúncios. Está exigindo condições reais para o investimento.
—É esse o clamor por mudança que está sendo ouvido na indústria?
—Sim. Não necessariamente uma mudança entendida apenas em termos partidários, mas uma mudança na capacidade de execução.
Mais leis não construirão a infraestrutura que a Colômbia precisa. O que é necessário são habilidades gerenciais, capacidade executiva e compreensão da linguagem dos investidores.
Quem mobiliza capital precisa ter a garantia de que poderá desenvolver o projeto, conectá-lo, operá-lo e recuperar o investimento dentro de um quadro estável.
—Nos últimos dias também houve debate sobre o leilão da taxa de confiabilidade. O que aconteceu?
—O leilão de taxa de confiabilidade é um dos mecanismos-chave do sistema elétrico colombiano. Trata-se de um leilão de expansão que visa garantir nova capacidade de geração para assegurar a confiabilidade do sistema.
Diferentemente de um leilão de energia renovável ou de um leilão de contrato de longo prazo, o produto leiloado aqui é energia firme. Conceitualmente, funciona como um seguro de demanda.
O sistema precisa saber que terá recursos disponíveis em momentos de escassez.
—A controvérsia surgiu porque foram adjudicados projetos térmicos.
—Sim, e há uma discussão aí que precisamos organizar melhor.
Não devemos encarar a energia como uma competição ideológica entre fontes. Cada fonte tem seus próprios atributos. A energia solar tem alguns atributos, a hidrelétrica outros, a térmica outros, e as baterias ainda outros.
Como país, precisamos de energia limpa, mas também de energia confiável e competitiva.
Os atributos não devem competir entre si. O sistema precisa da soma desses atributos.
—O problema é que a usina termelétrica já foi concedida, ou é que a Colômbia depende da importação de gás?
—A questão delicada é que parte dessa geração térmica é alimentada por gás natural importado.
Durante anos, a Colômbia escolheu o gás natural como seu combustível de transição. Mas hoje, o país perdeu sua autossuficiência em gás e precisa importá-lo. Isso acarreta custos, incertezas contratuais e necessidade de infraestrutura adicional.
Por isso, a discussão não pode ser superficial. Não se trata apenas de dizer "energia térmica sim" ou "energia térmica não". Trata-se de entender qual o tipo de energia de reserva que o sistema precisa e em que condições.
—Qual a urgência do problema de confiabilidade?
—Muito urgente.
A Colômbia está entrando em uma fase de alta probabilidade de El Niño. Atualmente, as usinas termelétricas respondem por aproximadamente 12% da geração de energia, mas, em um cenário de escassez hídrica, elas poderiam representar quase 55% da energia efetivamente consumida por residências e indústrias.
Isso demonstra que não podemos encarar o sistema como fontes separadas. Devemos vê-lo como um sistema.
—E como as energias renováveis se encaixam nessa discussão?
—As energias renováveis são essenciais, mas devem incorporar os elementos necessários para proporcionar estabilidade e confiabilidade.
A energia solar, por exemplo, tem um enorme potencial na Colômbia. Mas, se quisermos que ela desempenhe um papel cada vez mais importante, precisamos complementá-la com armazenamento, redes e mecanismos que nos permitam gerenciar sua variabilidade.
O futuro energético da Colômbia deve ser analisado sob a perspectiva da segurança energética.
—O governo anunciou um leilão de contratos de longo prazo para energias renováveis. Isso pode mudar o equilíbrio em direção à energia limpa?
—Pode ajudar, mas é preciso ter cuidado com as expectativas.
O leilão de contratos de longo prazo é importante porque pode ser um facilitador natural para o financiamento de projetos de energia renovável. No entanto, os projetos adjudicados por meio desse leilão só entrariam em operação por volta de 2029 ou 2030.
A Colômbia tem necessidades de curto e médio prazo que não serão resolvidas com projetos que só serão concluídos daqui a quatro anos.
—Então o leilão não foi suficiente?
—Não basta por si só.
Pode ser um sinal valioso, mas o país precisa resolver problemas imediatos de abastecimento, conexão, transmissão e gestão da demanda.
Além disso, precisamos examinar se os projetos adjudicados podem de fato ser construídos. Esse é o ponto central.
—Há também incerteza em relação ao leilão da vaga?
—Sim. Embora os resultados já tenham sido publicados, ainda há projetos que precisam apresentar garantias e contratos de fornecimento de combustível.
Até que isso aconteça, é impossível afirmar com total certeza quais projetos irão efetivamente encerrar o mecanismo.
Precisamos aguardar o fechamento completo para saber qual será a capacidade de geração disponível em 2030.
—Você mencionou o processo judicial como parte da solução. O que você quer dizer com isso?
—A Colômbia está lançando um marco regulatório muito importante para a autogeração remota.
Isso permite que uma empresa analise onde faz mais sentido produzir energia e, em seguida, distribuí-la para seus diversos centros de consumo no país.
Pode ser uma cadeia de restaurantes, um setor, uma empresa com várias filiais ou qualquer consumidor com múltiplos pontos de demanda.
—Isso altera o panorama do setor elétrico?
—Sim, porque estão começando a aparecer jogadores que não são geradores tradicionais, mas que conseguem produzir energia para o próprio consumo.
A demanda está começando a traçar novos rumos na indústria de eletricidade.
E isso pode ser muito relevante para indústrias, centros comerciais, cadeias logísticas, empresas de tecnologia e novos setores com forte presença no mercado consumidor.
—Quais novos padrões de consumo estão pressionando o sistema?
—Primeiro, os veículos elétricos.
Os veículos elétricos estão se tornando uma opção popular para famílias nas cidades colombianas. Mas isso significa um novo consumidor de energia.
E há um desafio: muitas pessoas carregam seus veículos quando chegam em casa, em horários em que a energia solar já não está disponível. Isso sobrecarrega o sistema e exige que consideremos baterias, flexibilidade e gestão da demanda.
—Você também mencionou centros de dados e inteligência artificial.
—Sim. A implantação da infraestrutura digital será enorme. Servidores, centros de dados e inteligência artificial vão exigir muita energia.
A Colômbia deve encarar a transição energética como uma oportunidade econômica, e não apenas como um problema de abastecimento.
Com a autogeração remota, uma empresa poderia decidir onde localizar seus servidores com base no clima, na conectividade e na proximidade da fibra óptica e, ao mesmo tempo, definir onde produzir a energia para suprir essa operação.
Existe uma enorme oportunidade aí.
—Voltando às eleições: se você tivesse que resumir, qual governo é o melhor para as energias renováveis?
—É necessário um governo que proporcione segurança.
Segurança regulatória, segurança institucional, segurança energética, segurança para investimentos e segurança para execução.
O governo que entender que as energias renováveis não se consolidam apenas com anúncios, mas sim com infraestrutura, transmissão, regras claras e capacidade de construção, será o que mais ajudará o setor.
—Mesmo que ele não seja quem mais fala sobre energias renováveis?
-Exatamente.
O melhor aliado das energias renováveis não será necessariamente aquele que mais usa a palavra "renovável" em suas campanhas, mas sim aquele que consegue criar as condições para que os projetos sejam construídos, conectados e operados.
Esse é o verdadeiro desafio da Colômbia.
—Que sinal o mercado está aguardando hoje?
—O mercado espera certeza.
Os investidores querem ter a certeza de que, ao participarem num leilão ou desenvolverem um projeto, conseguirão concretizá-lo. Que as regras serão estáveis. Que as instituições serão receptivas. Que a rede estará disponível. Que as licenças poderão ser processadas. Que o país compreende a importância das infraestruturas.
A transição energética não se concretiza apenas por meio de regulamentações. É preciso ação.
—Então, será que a eleição define o futuro das energias renováveis?
—Isso define uma parte muito importante.
A Colômbia já iniciou seu processo de incorporação de energia renovável. Isso não está em discussão. O que está em jogo agora é se o país conseguirá atingir um estágio de maturidade, onde os projetos deixem de ser simplesmente concedidos ou anunciados e comecem a operar de forma eficaz.
O próximo governo terá que decidir se quer gerir expectativas ou construir infraestruturas. E, para as energias renováveis, essa diferença é crucial.

